A proposta ao redigir este blog, Opinião, um texto para ler, avaliar, criticar e se posicionar, por meio de atitudes!, é de abordar assuntos que vão desde temas ambientais, profissionais e pessoais, deixando uma mensagem crítica com relação a eles e expressado mais uma de nossas FACETAS!
Não se pretende por meio da coluna obter apoio, muito pelo contrário, busca-se a avaliação, a crítica e o posicionamento dos leitores frente ao tema, exercitando a cidadania no ato de repensar nossas atitudes, fazendo com que cresçamos como pessoas. Além das críticas, sejam elas favoráveis ou contrárias a idéia apresentada no texto, o importante é que a leitura da coluna resulte em atitudes afirmativas frente ao problema tratado.
Pensar diferente não é o problema, o problema é não pensar!

domingo, 27 de abril de 2008

Será que “ser humano” ainda é “humano”

Moacir Jorge Rauber

Ainda podemos considerar humano como bom? Segundo o dicionário Aurélio, humano é tudo que é relativo ao homem, com a característica de bondoso, afetuoso, sensível, compassivo, terno e sentimental, que nos leva a pensar em ações humanitárias, visando ao bem-estar da humanidade. Humano também pode ser traduzido como amor aos semelhantes e, ao se falar da doutrina filosófica do humanitarismo, o mesmo dicionário fala que se trata da busca da eliminação das injustiças reinantes no mundo a fim de alcançar a felicidade humana.
Normalmente, em oposição ao que é humano encontramos a palavra animal. Daí se pergunta: tudo que for “animal” obrigatoriamente deve ser considerado como mau? Novamente buscando a definição no dicionário Aurélio ela nos remete a idéia de “qualquer animal que não o homem; ser irracional”. Em seu sentido figurado animal expressa a idéia de “pessoa desumana, bárbara, cruel”, ou ainda “pessoa muito ignorante, estúpida”. São estas algumas das definições encontradas no citado dicionário para o sentido normalmente dado a estas palavras em seu uso cotidiano pelas pessoas.
O questionamento não é quanto à correção semântica das palavras, mas quanto ao seu verdadeiro sentido como resultado das ações realizadas e comparadas, derivadas dos humanos e dos animais, de onde se extraiu o sentido ratificado em dicionários e no uso pelas pessoas. Questiona-se o conceito das palavras e sua relação com a realidade. Tomando-se como exemplo as ações humanas atuais, que são conscientes e racionais, comparando-as com as ações dos animais, que são instintivas e irracionais, percebe-se que as primeiras não têm nada ou pouco de humano, conforme o sentido encontrado no conceito da palavra.
As ações “humanas” e da humanidade, apesar de toda evolução técnica e do conhecimento científico acumulado, têm levado à guerra e morte de milhões de pessoas, bem como a extinção de milhares de outras espécies no atual estágio evolutivo da sociedade “humana”. Derivadas desse estágio “evolutivo humano”, as ações mais comuns a nossa espécie são a competição, na busca incessante pelo melhor posto de trabalho; a concorrência, para desenvolver o melhor produto; o consumo, para ostentar a melhor posição social; os roubos, os assaltos, os assassinatos e os seqüestros, para conseguir tudo aquilo que a sociedade julga importante ter. Estes últimos itens são as opções para aqueles que foram excluídos do grupo que conseguiu alcançar tudo que deseja pelo caminho da “legalidade”. Legalidade aparece entre aspas, porque faz-se necessário questionar se pode ser legal o fato de que ações excluem outros da mesma espécie, gerando uma sub-espécie. As ações humanas também atingem a “bestialidade”, referindo-se ao demônio e não ofendendo o animal “besta”, quando se estupra, para alcançar o gozo preconizado na mídia e incorporado pelo senso comum, levando os pobres diabos a buscar o que não se consegue, mas imagina existir; ou quando se tortura, de forma física ou psicológica, nas relações pessoais ou no trabalho, para se saciar a sede de poder veiculada como fonte de prazer. Todas essas ações “humanas”, somente para citar algumas, têm gerado a ansiedade, daquele que as faz e daquele que as sofre, atormentando as pessoas ao sobrepujar valores morais e éticos, instintivos. Resultado de uma sociedade aflita e mortificada, onde o sentimento de culpa pelo fracasso de, eventualmente, não obter tudo que é divulgado como necessário para ser um sucesso, quando não leva a matar, pode levar ao suicídio, sendo de uma crueldade feroz e animal. Ou melhor, de uma crueldade feroz e “humana”? Portanto, grande parte das ações “humanas” são baseadas na falsidade, no embuste, na mentira, constituindo-se numa sociedade desleal e anti-ética.
Por outro lado nas ações dos animais também existe competição, mas tão somente para manter-se vivo; também existe a morte, mas somente para garantir o direito a vida, dentro de uma relação de dependência natural; também existe o consumo, mas sem a necessidade de acúmulo de riqueza; também existe o gozo e o prazer, mas tão somente para a continuidade da espécie, não para atender aos anseios de nenhuma indústria. Nas ações animais não existem assassinatos, não existem roubos, não existem estupros, não existem guerras, justas ou injustas. Nas ações animais não existem seqüestros, não existem torturas, não existe a ansiedade que corrói a alma. Nas ações animais existem apenas ações que preservam a vida, em primeiro lugar da própria espécie, sempre baseadas na transparência do comportamento ético dos instintos de cada espécie, sendo ações leais e verdadeiras.
Após essa comparação, como podemos nós, “humanos”, dizer que “humano” é bom e que “animal” é cruel, quando nossas ações cotidianas e nossa forma de organização social nos desmentem? Como podemos nós nos classificarmos de racionais e as demais espécies de irracionais, quando nós, “humanos”, estamos racionalmente destruindo-nos e a todas as espécies? Há, portanto, um erro na conceituação dessas duas palavras, podendo praticamente inverter o sentido de cada uma delas, passando “humano” a ser considerado cruel e bárbaro, enquanto uma ação “animal” se refira, não exatamente a bondoso, mas pelo menos a leal e ético. Portanto, cabe a nós, representantes da espécie humana, ressignificar o valor semântico da palavra “humano”, ou melhor, por meio de novos padrões de comportamento fazer valer o atual significado. Isto é, fazer ser “humano” novamente como algo realmente bom, valorizando comportamentos éticos e morais, que sejam eles baseados nos instintos, mas que nos possibilitem a preservação da nossa espécie, das demais e do nosso planeta. Para tanto, ao invés de sobre valorizar a competição, valorizemos a colaboração; ao invés de sobre valorizar a disputa, valorizemos a cooperação; ao invés de sobre valorizar o ter, valorizemos o ser; porque ainda é possível e bom ser “humano”!

5 comentários:

Rose disse...

Caro Moacir!
Parabéns por esta nova etapa em sua vida. Gostei muito do seu artigo e vou repassá-lo.
Quando terminei de ler, duas idéias e um questionamento surgiram na minha cabeça.
Primeiro, historicamente, a religião separou no homem energias opostas de forma também cruel e quase nada respeitosa e impôs uma fé distante do humano na vida das antigas sociedades ricas em conhecimentos naturais, culturais e sagrado, este, no sentido natural do homem e não no sentido religioso.
Posteriormente vêm Descartes e constrói um altar para "razão" e abre espaço para o reinado do capitalismo, quando conceitua o homem como uma máquina, separando-o em partes e dando-o poder sobre toda natureza. Tentando a todo custo destruir conhecimentos naturais como a intuição e a sabedoria natural que existe no homem, deixando-o assim sequelado.
Nada contra o conhecimento científico que nos trouxe muitos benefícios, mas ele não foi capaz de resolver a questão ética-humana.
Hoje me questiono se a realidade cruel e destrutiva que está diante de nossos olhos não é resultado de um desenvolvimento desequilibrado que separou e/ou rejeitou parte da nossa natureza e se assim terá que ser até que o homem resgate dentro de si e reaprenda a equilibrar sua própria natureza.
Grande Abraço.
Rose

Moacir Rauber disse...

Oi Rose,
Obrigado pelas palavras de apoio e pela boa questão! É arriscado afirmar, mas poderíamos dizer que a natureza representa o equilíbrio e o homem evoluído o desequilíbrio? Isto porque, conforme o homem evoluiu e passou a se afastar da natureza (meio) e dos próprios instintos, os problemas foram aumentando. Podemos deduzir, então, que a razão e a lógica são desequilibradas? Caramba, ficam os questionamentos no ar...

Luiz Portinho disse...

Questionamentos no ar... Isso é filosofia, meu caro! O ser humano é o produto do meio em que vive. Por isso, atualmente, consumir e atender aos padrões de beleza está acima de valores fundamentais como a cooperação, solidariedade etc. De outro lado, a superpopulação do globo também contribuiu para este panorama de total desconstituição de valores, porque nem todos tem oportunidades de gozar as beneces da evolução humana. Mas nem tudo esta perdido meu caro, porque ainda existem muito seres humanos "humanos". Abraço.

Moacir Rauber disse...

Concordo contigo, Portinho!!! Por isso espero que se sobressaiam os humanos “humanos”, para que o meio em que vivemos tenha essas características ressaltadas.
Obrigado pelo comentário.

Lucas Angnes disse...

Passando pelo blog...

Belas palavras Moacir, pena que na prática fique muito difícil sermos "humanos".

E o inter ein?! Goleada mais comprada? hehehehehe... abraço..